quinta-feira, 24 de maio de 2012

Bethânia


Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
***
Quando me pergunto
Se você existe mesmo, amor
Entro logo em órbita
No espaço de mim mesmo, amor
Será que por acaso
A flor sabe que é flor
E a estrela Vênus
Sabe ao menos
Porque brilha mais bonita, amor
O astronauta ao menos
Viu que a Terra é toda azul, amor
Isso é bom saber
Porque é bom morar no azul, amor
Mas você, sei lá
Você é uma mulher, sim
Você é linda porque é
(Vinícius de Moraes)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Vigília (da atividade literária em geral)

"Grande perturbação da natureza é esta em que se goza dos benefícios do sonho sem perder os efeitos da vigília".

Nos penhascos de mármore

"Todos conheceis a profunda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes. Eles são irrevogáveis, e deles somos cruelmente separados por uma distância maior que todas as distâncias juntas. Quando tornam a brilhar, as imagens do passado revelam-se ainda mais atraentes: lembramo-nos delas como do corpo da amada que morreu, que descansa nas profundezas da terra e, à semelhança de uma miragem, nos faz estremecer num esplendor mais alto e mais puro. De novo e sempre, em nossos sonhos ardentes, tateamos à procura, em cada pormenor e em cada ruga. Tudo se passa como se não tivéssemos enchido até a borda a medida da vida e do amor. E, no entanto, nenhum arrependimento traz de volta o que se perdeu. Ah, que este sentimento se torne uma lição a cada momento de felicidade!"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Natureza viva

"Como você sabe, dirás feito um cego tateando, e dizer assim, supondo um conhecimento, faria quem sabe o coração do outro adoçar um pouco até prosseguires, mas sem planejar, embora planejes há tanto tempo, farás coisas como acender o abajur do canto depois apagar a luz mais forte, criando um clima assim mais íntimo, mais acolhedor, que não haja tensão alguma no ar, mesmo que previamente saibas do inevitável das palmas molhadas de tuas mãos, do excesso de cigarros e qualquer coisa como um leve tremor que, esperas, não transparecerá em tua voz. Mas dirás assim, por exemplo, como você sabe, sim como você sabe, a gente, as pessoas, infelizmente têm, temos, essa coisa, emoções, mas te deténs, infelizmente? o outro talvez perguntaria por que infelizmente? então dirás rápido, para não desviar-te demasiado do que estabeleceste, qualquer coisa como seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente, insistirás, infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções. Meditarias: as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis-não-formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem, e sobretudo emoções. Que nem se mostra. Por tudo isso, infelizmente, repetirás, insistirás, completamente desesperado, e teu único apoio seria a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra estarás quem sabe afastando para sempre. Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado, e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com seus olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna, absolutamente não-verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data, maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa, como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, porque ele continuará te olhando com seus olhos vazios, no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de um tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas. Mas nesse silêncio que certamente se fará, talvez acendas mais um cigarro, e com a seca boca cerrada, sem nenhum sorriso, evitarias o mergulho para não correres o risco de encontrar uma fera adormecida. Teu coração baterá fortemente, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imaginas que poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas, em vão, descobrir também nele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tangível de tão clara.
Nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos dentro de uma bolha de ar, de tempo, de espaço, e novamente encherás o cálice com um pouco mais de vinho para que o líquido descendo por tua garganta trêmula vá de encontro a essa claridade que tentas, precário, transformar em palavras luminosas para ofender a ele. Que nada, diz, e nada dirás, e sem saber por quê pensas um extenso corredor escuro onde tateias, feito cego, as mãos estendidas para o vazio, pressentindo o nada, que tu mesmo prepararias agora, suicida meticuloso, através de silêncios mal tecidos e palavras inábeis, pobre coisa sedenta, te feres, exigindo o poço alheio para matar tua sede indivisível.
Anjos e demônios esvoaçariam coloridos pela sala, mas o caçador de borboletas permanece parado, olhando para a frente, um cigarro aceso na mão direita, um cálice cheio de vinho na mão esquerda. A presença do outro latejaria a teu lado, quase sangrando, como se o tivesses apunhalado com tua emoção não dita. Tuas mãos apoiadas em bengalas mentirosas não conseguiriam desvencilhar o gesto para romper essa espessa e invisível camada que te separa dele. Por um momento desejarás então acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez com tudo isso, fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções, que não desejas tocá-lo nem conhecê-lo, que o aceitas assim latejando amigo velo remoto, completamente independente de tua vontade, te todos esses teus informulados sentimentos. No momento seguinte, tão imediato que nascerá, gêmeo tardio, quase ao mesmo tempo que o anterior, desejerás depositar o cálice, apagar o cigarro e estender duas mãos limpas em direção a esse rosto que sequer te olha, absorvido na contemplação de sua própria paisagem interna.
Mas indiferente à distância dele, quase violento, de repente queres violar com tua boca ardida de álcool e fumo essa outra boca a teu lado. Desejarás desvendar palmo a palmo esse corpo que tá tento tempo supões, até que as palma famintas de tuas mãos tenham percorrido todos os caminhos, até que tua língua tenha rompido todas as barreiras do medo e do nojo, tua boca voraz tenha bebido todos os líquidos, tuas narinas sugado todos os cheiros e, alquímico, os tenha transmutado num só, o teu e o dele, juntos - luz apagada, peças brancas de roupa cintilando, jogadas ao chão. Desejá-lo assim, a esse outro tão íntimo que às vezes julgas desnecessário dizer alguma coisa, porque enganado supões que tu e ele, vezenquando, sejam um só, te encherá o corpo de uma força nova, como se uma poderosa energia brotasse de algum centro longínquo, há muito adormecido, quem sabe dessa luz oculta, é então que sentes claramente que ele não é tu e que tu não serás ele, essa coisa, o outro, que mágico ou demoníaco, deliberado ou casual, te inflama assim, alucinando tua alma. Queres pedir a ele que, simplesmente sendo, te mantenha nesse atormentado estado brilhante para que possas iluminá-lo também com teu toque, com tua língua terna, com a vara de condão de teu desejo. Mas ele nada sabe, nem saberá se permaneceres assim, temeroso de que uma palavra ou gesto desastrados seriam capazes de rasgar em pedaços essa trama onde te enleias cada vez mais sem remédio, emaranhado em ti, em tua viva emoção, emaranhado no desconhecido de dentro dele, o outro - que no lado oposto do sofá cruza as mãos sobre os joelhos, quase inocente, esperando atento, educado, que de alguma forma termines o que começaste. Muito mais que com amor ou qualquer outra forma tortuosa de paixão, será surpreso que o olharás agora, porque ele nada sabe de tu próprio poder sobre ti, e neste exato momento poderias escolher entre torná-lo ciente de que dependes dele para que te ilumines ou escureças assim, intensamente, ou quem sabe orgulhoso negar-lhe o conhecimento desse estranho poder, para que não te estraçalhe impiedoso entre as unhas agora calmamente postas em sossego, cruzadas nas pontas dos dedos sobre os joelhos.
Ah: fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele.
Que não suspeitará de tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo estás. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharás com a ponta dos dedos o nascimento de novos fios brancos nas tuas têmporas, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro. Sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa.
Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar."

sábado, 2 de julho de 2011

O manto

"Pensei que pensar fosse mais doce, que o destino tivesse menos orifícios, que a peneira da vida me poupasse, fosse mais que o escrofulário onde o mel purulento desce a garganta da alma enviando a cena, a sede, o coma, à derrisão airada a mover meu pensamento. Para onde terão ido as borboletas que antes pousavam na magnólia?"

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Post-rascunho resgatado: Composição (de 28/08/2008 - 08:26)

Sentia asco das verdades insólitas que teimavam em sussurrar-lhe ao pé do ouvido. Diabo das cancheiras, cabrocha nas ladeiras da vida. Por um segundo, cerrou os olhos e imaginou-se grávido. Grávido de tudo, de fome, de tesão, de vazio, do mundo. Ser tudo e nada. Isso era o que o definia. Alguns sentimentos jorravam até certa altura, no entanto outros, incontestavelmente antagônicos, eram defendidos por ele em outro plano. "As coisas têm vários sentidos", pensava consigo mesmo. E, no entanto, nunca permitia expressar idéias tão óbvias (e ao mesmo tempo tão complexas) aos seus amigos. Taí mais um exemplo do paradoxo em sua vida.


A vida queima e o fogo fere. A cada segundo o Boto-mórula se consumia e ia adquirindo uma cor grafite-acinzentada. Pele em carne viva. A alma descarada. Escarrar nos outros e atirar chiclete na calçada. Talvez por nunca ter sentido tanto ou talvez por crer não sentir nada (paradoxo #2 em si) trazia revolta consigo mesmo.



"A coisa em ti, nunca. A coisa em si". Relampejos numa escuridão cortada por flashes de coloração azul-anil, verde-esmeralda e magenta. Das luminescências observa-se uma cara enrugada. Sonhar acordado, ver sua própria face seca e podre enquanto ainda se possui o viço da juventude.



Imaginava nunca poder justificar mediocridade com a falta de idade. Maturidade maturidade maturidade. Consciência dos próprios atos versus culpabilidade. O vício penal em si. Crianças na Alemanha combatiam a ditadura aos quinze anos e reis subiam ao trono aos treze. Júbilo de enfastio, lágrimas escorriam negras dos olhos em furor.



Como fazia calor! Por Deus. Um suor escorria-lhe pelo peito e uma gota desceu por entre o sulco do peitoral. Abanava-se e pensava em como o calor remetia à idéia de fornicação. Afinal uma orgia teria uma definição mais honrosa do que a de um bacanal? Sentia-se em contato com o mundo e vinha à sua mente a imagem dos olhos revirados de uma mulher cavalgando de prazer.



Carros trocaram buzinas no cruzamento lá fora e o retiraram do sono. Espreguiça-se e deita-se de lado preguiçosamente esfregando os olhos. Já ia horas ali no ócio porém ainda se sentia cansado. Culpava as ondas de rádio que outrora não matavam os neurônios de sua cabeça e achava que o tempo ia paulatinamente se acelerando sem que ninguém, para o seu desespero, se desse conta. A não ser ele. Ó Senhor, livrai-nos dos "abestados e atoleimados". Hilst desde então já dizia.




Queria conversar em outra época, reencontrar amigos de hoje só que com a opinião de dois anos atrás. Teria, se vivesse na década passada, assediado Elis Regina e invadido o domicílio de Hilda Hilst. Estrada do Sol para a morada do Sol. Compraria um outdoor em plena Avenida Paulista e declararia seu amor às vítimas de todas aquelas tragédias que ainda haveriam de acontecer.


...



Dois anos depois e lhe pergunto: para onde esse poeta foi?

Post-rascunho resgatado #3: Aritmética (em 15/09/08 - 08:40)

"Quando entrei naquele carro, já estava amando. Amando mesmo, com amor de verdade, não apenas paixão; que, masculina, cresce junto com o pau e também murcha com ele. Sentia, sim, amor de verdade, e isso era perfeito, merda, perfeito. Não era pau querendo boceta, o mais fácil dos sentimentos. Era eu querendo ela, e imediatamente, e intensamente; e pra ficar com ela, trepando ou não. Para sair com ela pelos lugares mais públicos, dizendo para todo mundo: vocês estão vendo essa mulher? Heim? Estão vendo? Ela pode enlouquecer, engordar, emburrecer. Pode me desprezar, cuspir em mim e chamar meus livros de porcaria. Ela pode a puta que o pariu, que eu vou continuar sentindo a mesma coisa por ela: amor.
Para todo o sempre, estaria louco por ela e morreria por ela, mesmo sabendo que “todo o sempre” é errado dizer e “por ela” é feio. Por ela, escreveria mil livros inteiramente errados e feios. Só por ela. Porque ela sempre seria inteira linda, e nem isso importava. Ela já possuía meu infinito amor, quando me sentei ao seu lado.

Pois percebi que ela era minha. Minha. Louca ou não, burra ou não, linda ou não, magra ou não. Grávida de outro ou não. Eu a amava, como ainda a amo, e fodam-se todas as estatísticas que provam que isso não existe.
Que amor não nasce desse jeito, que não dura. E se um amor só pode ser especial assim se for triste, que eu morra. Ou tivesse morrido. Naqueles longos minutos, no carro, indo para um hotel barato. Ou já lá dentro, de um ataque fulminante de asma, ao respirar o ar daquele lugar de merda. Lugar de putas. Onde nós transamos pela primeira vez, eu e a mulher que eu já amava. Que nunca teria um filho meu, mas abriu seu corpo esguio para mim. Sabendo. Sabendo que, mesmo com todo o amor, eu nele entraria baixamente. Sendo qualquer coito baixaria para uma mulher, já que o coito é do homem. É o masculino agindo, metendo, trombando. E aquela mulher me recebendo feliz, como o segundo homem de sua vida, o único segundo homem da sua vida. Depois ela poderia dar para todo o batalhão de amantes de Platão, os belos amantes perfeitos de Platão, os amantes gays de Platão, que eu diria: ainda a amo. Já naquela primeira vez, se ela quisesse ouvir, eu diria, como mais tarde disse: quero só você, somente você, nada mais que você. América. Que, de tão moderna, tão despudoradamente à nossa frente, insistiu em fazer-se de puta, estando mais para Nossa Senhora. De tão corajosa, negando-me. E eu não poderia jamais imaginar que aqueles joelhos ficariam para sempre em minha cabeça."