quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Post-rascunho resgatado: Composição (de 28/08/2008 - 08:26)

Sentia asco das verdades insólitas que teimavam em sussurrar-lhe ao pé do ouvido. Diabo das cancheiras, cabrocha nas ladeiras da vida. Por um segundo, cerrou os olhos e imaginou-se grávido. Grávido de tudo, de fome, de tesão, de vazio, do mundo. Ser tudo e nada. Isso era o que o definia. Alguns sentimentos jorravam até certa altura, no entanto outros, incontestavelmente antagônicos, eram defendidos por ele em outro plano. "As coisas têm vários sentidos", pensava consigo mesmo. E, no entanto, nunca permitia expressar idéias tão óbvias (e ao mesmo tempo tão complexas) aos seus amigos. Taí mais um exemplo do paradoxo em sua vida.


A vida queima e o fogo fere. A cada segundo o Boto-mórula se consumia e ia adquirindo uma cor grafite-acinzentada. Pele em carne viva. A alma descarada. Escarrar nos outros e atirar chiclete na calçada. Talvez por nunca ter sentido tanto ou talvez por crer não sentir nada (paradoxo #2 em si) trazia revolta consigo mesmo.



"A coisa em ti, nunca. A coisa em si". Relampejos numa escuridão cortada por flashes de coloração azul-anil, verde-esmeralda e magenta. Das luminescências observa-se uma cara enrugada. Sonhar acordado, ver sua própria face seca e podre enquanto ainda se possui o viço da juventude.



Imaginava nunca poder justificar mediocridade com a falta de idade. Maturidade maturidade maturidade. Consciência dos próprios atos versus culpabilidade. O vício penal em si. Crianças na Alemanha combatiam a ditadura aos quinze anos e reis subiam ao trono aos treze. Júbilo de enfastio, lágrimas escorriam negras dos olhos em furor.



Como fazia calor! Por Deus. Um suor escorria-lhe pelo peito e uma gota desceu por entre o sulco do peitoral. Abanava-se e pensava em como o calor remetia à idéia de fornicação. Afinal uma orgia teria uma definição mais honrosa do que a de um bacanal? Sentia-se em contato com o mundo e vinha à sua mente a imagem dos olhos revirados de uma mulher cavalgando de prazer.



Carros trocaram buzinas no cruzamento lá fora e o retiraram do sono. Espreguiça-se e deita-se de lado preguiçosamente esfregando os olhos. Já ia horas ali no ócio porém ainda se sentia cansado. Culpava as ondas de rádio que outrora não matavam os neurônios de sua cabeça e achava que o tempo ia paulatinamente se acelerando sem que ninguém, para o seu desespero, se desse conta. A não ser ele. Ó Senhor, livrai-nos dos "abestados e atoleimados". Hilst desde então já dizia.




Queria conversar em outra época, reencontrar amigos de hoje só que com a opinião de dois anos atrás. Teria, se vivesse na década passada, assediado Elis Regina e invadido o domicílio de Hilda Hilst. Estrada do Sol para a morada do Sol. Compraria um outdoor em plena Avenida Paulista e declararia seu amor às vítimas de todas aquelas tragédias que ainda haveriam de acontecer.


...



Dois anos depois e lhe pergunto: para onde esse poeta foi?

Um comentário:

Ferreira Carvalho disse...

Ora, pois que me faço a mesma pergunta. Vc me mostrou esse blog mas desde então nada novo. Não deixe o dia a dia do cotidiano corporativo te engolir assim...tão fácil.