segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Eu, Lucas

"E retomando velhice, pensando eternidade, também eu galopo, por que não morrer? Por que não atravessar o grande rio, ou dele fazer parte, ser água e barqueiro, mas viva ferida na pretensa austeridade de sempre do teu peito? Porque não morrer, se há muito me sei tão morto porque vivo em ti tão impotente, corroído de prenhez e de desejo, não me envergonho de usar prenhez em mim, virilidade também comporta precisa redondez, tua alma na minha cabeça, no ventre, teu espírito baço mas amálgama do meu, e tão desejado, não era o que eu pretendia na velhice, amar um outro homem, inarticulado utilizar a palavra como uma velha-espada, corte-cego, sem fio, ferrugem sobre a prata, não, eu não queria e vou dizê-lo
sabe, Naim, eu não queria
o quê? que os perfis se desmanchassem?
um no outro, eu não queria, que um só se desmanchasse sim, para a nitidez do outro
pobre Lucas.
(...)

E enquanto me aproximo do teu rosto cinco ou seis passos, o passado explode, jorra dentro da sala por um imenso buraco, revejo teus dissimulados toques, uma lascívia escura, um remendo rugoso inaceitável para a tua brilhosa juventude, (...) Te imagino tu-eu. (...) Lucas caminha, o outro sorri, mudo, e pela grande janela de onde há pouco se viu dois perfis, uma cara, pela grande janela, ágil, Lucas se atira."

Hilda Hilst in 'Lucas, Naim'

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