quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cara, não sei como tu entendes as palavras e as coisas mas...

"ERA TELÚRICO E ÚNICO. Sonhava. Sonhava adeuses e sombras. Sonhava deuses. Era cruel porque desde sempre foi desesperado. Encontrou um homem-anjo. Para que vivessem juntos, na Terra, para sempre, ele cortou-lhe as asas. O outro matou-se, mergulhando nas águas. Estou vivo até hoje. Estou velho. Às noites bebo muito e olho as estrelas. Muitas vezes, escrevo. Aí repenso aquele, o hálito de neve, a desesperança. Deito-me. Austero, sonho que semeio favas negras e asas sobre uma terra escuta, às vezes madrepérola."


"Ó deuses, devolvam-me a mim mesmo
o meu próprio rosto
redimam-me por piedade de mim!"

Encontro-me olhando para dentro, de costas para mim mesma!
Que temor!

domingo, 28 de junho de 2009

O Abutre


Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.

- É que estou sem defesa – respondi – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor – Basta um tiro e pronto!

- Acha que sim? – disse eu – Quer o senhor disparar o tiro?

- Certamente – disse o senhor – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?

- Não sei lhe dizer. – respondi.

Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:

- De qualquer modo, vá, peço-lhe.

- Bem – disse o senhor – Vou o mais depressa possivel.

O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás, senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

Vou-me. One flew over the cuckoos nest.



“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Olaria


"Aprendo a cada sopro de vento que a vida vale o que dela não se cumpre."

Ler: O Conto do Abutre - Franz Kafka



"(...) a vida é sofrimento de diversos modos dito.
Mas eu não sofri como alguém que sofre. Não lembro de nada que fosse igual à vida de qualquer um. Não tive sonhos como quem sonha, e fome como é de se ter fome quando a boca vazia se anuncia porta morta do estômago. Se houvesse o cerne das coisas, eu teria a fome que é comum a todos. Tive, todavia, fome de uma outra e mesma espécie: a fome do corpo, assim nasci e me ensinaram - não foi nada difícil obedecer, aceitar o ritmo imposto, as ordens de cima e engolir tudo que me era oferecido. Tive fome, recebi alimento, obtendo como uma espécie de comida - porque tudo, em sendo do mundo humano, se come - o dízimo do afeto como uma colher de sopa, o dedo da compaixão como a ponta seca do pão e a final xícara de chá para o estômago que se defende em nome da moléstia que seca com lágrima aziaga a passagem dos dias. Fui vivendo. Tive a fome do corpo, mas não tive a fome que move, a alma da fome que arrebenta o corpo em ondas fazendo-o mar vivo onde navegar existência, nem a fome da alma que faz dos sonhos o verdadeiro alimento, pois deles cresce a vida, e a vida é boa, não sei ao certo, mas deve ser, como apenas sabem ser os instantes despercebidos, ela está nas coisas que se inventam e crescem, mas também momentos felizes que suportam os maus instantes sobre os quais se costuma emitir o juízo de que isso é vida. Ou seria o sonho? Não suponho que nada disso seja verdadeiro, é um discurso ainda que não seja belo. Preciso do sonho, outro discurso, outra teoria. Vou reunindo minhas necessidades à sensação de que devo seguir. Volto, a cada vez, ao sonho.


(...)

Escolhi, no quão de escolha pode ter um traçado afeito ao inexorável, olhar as coisas como folhas de árvores distantes e janelas de uma cidade longe, e percebi suas tensões e estratégias, limites e vazios, e, das coisas vistas e visíveis, decidi pelo céu, não como em decisão de teor exato, mas porque o destino se diz de diversos modos e já que se respeitá-lo; decidi-me, então, pelo que flutua e, muito mais tarde, pelo que dele cai, que se mostra a todas as coisas enquanto se esconde ao olho. O olho é o limite. O mundo caiu do céu vindo parar dentro de meu olho, junto desceram pássaros diurnos e noturnos; nenhum deles me livrou de meu suplício, nem lhe carregou a culpa; não levantaram vôo nunca mais, minhas membranas grudaram em suas patas. Fiquei com a natureza em mim, o olhar de medo, distante das coisas, saturado de ar, esvoaçado e flutuante, ciscos e ciscos, cílios caídos dentro do vulcão, as constelações mortas, as luzes apagadas. Isso me pesa, não porque o universo seja desproporcional ao que posso ver, mas porque me enche de remorsos não poder vê-lo por inteiro. Esforço-me em ver, não posso ver o que deveria, os escombros estão sob a tarja azul que apareceu sobre a minha retina, a cada movimento me torno mais incapaz; além de tudo, o cansaço da ação do olhar, acrescido da incompreensão dos caminhos de ver, dá-me muito sono; a vontade de dormir para sempre, comum a quem é vivo, prostra-me funâmbula entre dois mundos, o de antes e o de depois da corda, e a Parca à espreita segue com seus cílios longos ameaçando com labaredas aquosas o minuto vindouro; entre o fio tecido e o antes fio fiado, temo a tesoura sem fio que morderá desdentada o resto do meu tempo, fazendo-me a abandonada vítima dessa tria fata, e eu a mosca presa em fios de teia; meus muitos olhos - não tivesse eu esses olhos quase cegos - de nada resolveriam se eu precisasse abarcar o mínimo; hei, por força da tarja azulíssima em minha retina, de vagar sempre palmos adiante do mais próximo, dedos aquém do mais longe, pesando, pesando, a corda por todos os lados, eu sem ver aonde ir; Pégaso caído sobre meus ombros, o peso do desamparo curva-me ainda mais. Se pudesse, dormiria anos para deixar de ver por completo e de seguir com esse peso; se eu pudesse, ficaria em paz no escuro, como uma nuvem de fumaça que esmaece em neblina úmida, memória alugada para as horas infames que venho tendo. (...) Tenho a dívida e não devo deixá-la para trás, como é preciso levar a sério todas as simples questões de vida e morte."



(Magnólia)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O livro da minha vida

Harry diz: "Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte."

Ao que Hermínia responde: "Quero dizer-lhe hoje uma coisa que já sei há muito e que você também sabe, mas que talvez nunca a confessou a si mesmo. Quero dizer-lhe agora o que sei de mim, de você, de nosso destino. Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry? Não é este o seu destino?"



(O Lobo na Estepe)

Não sei se já coloquei aqui. Na realidade, nem gosto tanto dela, mas suas frases me vêm muito a propósito...




"O amor deveria ser somente o início. Haveria um alarme interno que lembrasse: acabou. Antes de virar rotina. Antes do tédio, este tumor moderno. Bem antes de se tornar uma areia movediça que deixa a todos apenas o nariz de fora. 'O reverso inevitável da paixão'. Fim. The end. Finito. Ou uma campainha aguda no cérebro, que acordasse da letargia irracional que a maioria dos amantes adquire com o passar do tempo. Tudo, porque o Homem deseja a eternidade. Ele não tem fé suficiente para acreditar em vida após a morte, por isso quer durabilidade. Prefere se agarrar ao eterno em vida. E, para a grande e extensa maioria, a eternidade não virá em forma de obra-prima. Por isso, o casamento."

(Vergonha dos Pés)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Aritmética


XIII

"Sabe qual é meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. Que um dia imagine o quanto teria sido ótimo estar ao meu lado, mesmo quando eu estava gripada. No entanto, sei que você está a cada dia que passa mais fugidio. E eu me limito a me surpreender com as circunstâncias da vida. Que me levaram a viver esse papel: o da mulher que quer mais um pouquinho. Constrange-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por você estar dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida. Latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude."

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Last Tango in Paris


Façamos do acaso destino.


- É o fim.
- Tudo que termina começa novamente.

1900

You please just show me

where it ends?

It was all very fine on

that gangway. And I was grand too

in my overcoat

I cut quite a figure

And I was getting off

Guaranteed

That's wasn't the problem

It wasn't

what I saw that stopped me, Max

It was what I didn't see

Understand?

What I didnt' see

In all that srawling city

there was everything except an end

There was no end

What I did not see was where

the whole thing came to

 an end

The end of the world

You take a piano

Keys begin

The keys end

You know there are 88 of them

Nobody can tell you any different

They are not infinite

You are infinite

And on those keys, the music

that you can make is infinite

I like that

That I can live by

You get me up on that gangway

and you roll out in front of me

a keyboard of millions

and billions of keys that never end

and that's the truth

Max, that they never end

That keyboard is infinite

And if that keyboard is infinite

then there is no music you can play

You're sitting on the wrong bench

That's God's piano

Christ, did you see the streets?

Just the streets.

There were thousands of them

How do you do it down there?

How do you choose just one?

One woman

One house

One piece of land to call your own

one landscape to look at

one way to die?

All that world

just weighing down on you

You don't even know

where it comes to an end

I mean, aren't you ever

just scared of

breaking apart

at the thought of it?

At the enormity of living it?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Trecho do discurso de posse de João na Academia Brasileira de Letras

"Nem agüentaria dobrar mais momentos, nesta festa aniversária - dele, a octogésima, que seria hoje, no plano terreno. Tanto tempo a esperei, e fiz que esperásseis. Relevai-me.

Foi há mais de quatro anos, a recém. Vésper luzindo, ele cumprira. De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias.

Mas - o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? “Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta" - Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita. A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: JOÃO NEVES DA FONTOURA.

Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: "Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!" - desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Soprem-se as oitenta velinhas.

Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.

- Ministro, está aqui CORDISBURGO."

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Doubt

As I laid there, on the couch, half naked, the roof started sinking and everything seemed to lose its shape, or else: at the precise moment that I turned my look away, it would gain life and begin to conspire against me, I felt it. There! Out it went. I stared on the very end of the couch towards the floor and a cliff is what I saw. Made of worn bricks and a small pipe in the very middle of it, from which fell constantly water into the abyss. Flowing from nowhere, going downhill. As well was I. The great wall started trembling. A sudden feeling made me want to jump, and...


Um médico de aldeia


"Aos corações feridos, sombra e silêncio."

domingo, 29 de março de 2009

I'm not there


"Because relations are always ambiguous
and I continually fail to communicate
because I continue to blame myself
even when I'm not to blame
because each failing has made me more remote
from myself,
from my babies and from you,
for all these reasons
and many more still unknown
I must listen.
I must look around more than ever
I must leave."

sábado, 14 de março de 2009

Choose life

Sometimes, I dream of a tree and the tree is my life.

One branch is the man I shall marry, and the leaves my children.

Another branch is my future as a writer and each leaf is a poem.

Another branch is a glittering academic career, 

but as I sit there trying to choose,

the leaves begin to turn brown and blow away

until the tree is absolutely bare.

Paralels


Dying is an art.

Like everything else,

I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.

I do it so it feels real.

I guess you could say I have a call.

Gold lion


Meus olhos dóem. Ofuscante, minha visão está esbranquiçada e não consigo ler. Devo continuar assim, para deixar de acreditar nos meus olhos ao invés dos ouvidos. E, quem sabe, começo a falar as coisas de maneira mais próxima com que eu penso. Eloquência, sabe?

Imagens que me vêm à mente neste cego instante: uma mão acaricia uma barriga, mão deslizam sobre um balcão branco  sob uma luz que aparenta ser o nascer do sol, quinas de mesas, pernas de cadeira, meu cão desolado. Grades.

Diamond sea. Diamond sea.

Minha vó acaba de ligar e lhe disse que meu pai vai se casar novamente. "Não, vó, não a conheci ainda". "Sim, vó, ela é mais nova que ele. Não tão mais nova, no entanto... "Não, todavia não a conheci".

"Ah, meu filho".

sexta-feira, 13 de março de 2009

Um post mais longo. Pelas horas que valem a pena (e somente elas)



Ovo. Ponto zero. Corpo sem órgãos. O dito e tanto redito. Cortado e superficial. Um corpo cuja existência não é outra senão a produção de arte. Uma bricolage. Selecionada por uma objetiva e registrada de acordo com a exposição da luz. Ampliada por lentes. Reproduzida em pixels. Vista como imagem.
Feliz é quem não precisa de uma imagem para se saber artista. Fazer arte é algo muito diferente daquilo que se preconcebe. É uma questão de VIDA, não de exibição. Implica um produzir que pouco se coloca em produtos e exposições, mas sim faz espaços. Espaços para viver. Lugares de estar junto.
Uma mesa é um lugar de estar junto. Uma mesa é um palco? As pessoas que estão nela são atrizes, performers, bailarinas, musicistas? Doutoras. Professoras? Mediadoras? Interlocutoras? Apresentadoras? Painelistas, é essa a imagem que se faz. Figuras aqui desta casa, da casinha aqui perto, da casa avizinhada, de outro lugar do país. Estamos todas aqui. Todos que aqui estão morrerão um dia. Evitar a morte é o motivo da poética. Se colocar numa obra, conservando imagens, é o modo que os humanos encontram para se manterem eternamente vivos. Viver eternamente é a maneira que nós achamos para nunca deixar morrer nossas paixões.
Não erguemos megalitos, não inventamos pirâmides, não construímos catedrais. Uma vez professores, nossa obra é aquilo que repercute em nossos alunos, de geração em geração. São eles, individualmente ou em grupo, a razão de tanto trabalho sem aparente produto. Suas vidas, sucessos, alegrias, realizações compõem a obra coletiva de um currículo feito por muitas e controversas cabeças. Uma hidra. Um monstro. Aglomeração sem outra finalidade além de compor. Algo que se mostra sem fins didáticos, mas com a mais desejosa das intenções.
E que intencionamos com a poética, é colocar o amor em criação.
Pois é sempre de um corpo amado, às vezes paradoxalmente odiado e perturbador, que a imagem trata. Para estudar o corpo em questão, o desejo precisa virar conceito. Criação para povoar o pensamento, o que é concebido traça o plano em que toda imagem devém. Sem plano nada se conquista. O que precisamos conquistar é aquilo que amamos. Temos amor por algumas imagens não porque elas representam os corpos amados. Amamos as imagens que erguem esse corpo e fazem dele matéria instalada no coração. O coração é só mais uma imagem. Cheia de alvos, indicações, indícios, desperdícios, malefícios e besteiras. O que cabe nessa imagem que nos é tão cara, depende de quem a evoca. E o que, junto ao coração, esse ultra clichê da cristandade hoje travestido em romantismo leigo para consumo, pode ser invocado, é justamente o que vai dar cara para nossas imprescindíveis paixões.
Uma imagem não afirma nada. Uma imagem pode estar cheia de significados. Se ela inscreve coisas além do que o olho vê, a culpa é dos clichês. Romper com os clichês é se aventurar em criações. Sem garantia alguma de que algo diferente aconteça. Porque o quadro negro, as vagas, os espaços vazios, a folha em branco, tudo isso está cheio de clichês: observação de Deleuze em suas incursões filosóficas sobre pintura.
Criamos com alusões. Ilusão é acreditar nas imagens, essas criações do pensamento que extrapolam a visualidade. O que identificam, o que representam, o que querem dizer: o que isso importa para quem com as imagens se ocupa? Imagens comportam mundos. Com imagens montamos paisagens. Aglutinamos preferências e juntamos o que nos interessa. Fixas e efêmeras, as imagens são figuras que povoam o pensamento. Fugidias e perenes, sempre tiradas daquilo que na vida aparece.
5 minutos de leitura oral
Nenhuma paisagem permanece eterna. A visão se esvai. Como o corpo, que por mais que permaneça, de algum modo se acaba. Trazer imagens não garante a conservação do que elas implicam. Fazer desaparecer, de algum modo, é excessivamente mostrar. Vista em excesso, qualquer imagem deixa de ter força. Por mais re-apresentada que seja. Ainda que insistentemente se propaguem, imagens não são feitas, necessariamente, para atrapalhar. Mas podem causar transtornos. Pois se colam em discursos, tabus e complicados afetos. Aspectos indissociáveis em um mesmo plano de expressão. Obviamente ideológicas, educam. Se não percebemos os clichês colados numa imagem o olho não tem nada a ver com isso.
6 minutos e 10 segundos
O olho é apenas o ponto de passagem. O que o cérebro faz com aquilo que o olho captura é o que dá para as imagens o estatuto que os estudiosos contemporâneos tanto trazem em suas falas. Classificar e interpretar imagens: ocupação acadêmica estabelecida. Trabalho que sobrepõe nas imagens codificações que, necessariamente, algumas imagens não têm. O problema não é esse procedimento, mas sim deixar de trabalhar com tudo o que a imagem não identifica. O que na imagem, não pode ser codificado. Com tudo o que, numa imagem, move o pensamento.
7 minutos
Desejamos imagens não pelo que elas representam e sim pelo movimento que elas produzem nos corpos. Todo amor não passa de um decalque muito bem sucedido entre uma imagem criada subjetivamente e um corpo, preferencialmente experimentado no físico. Apaixonamos-nos quando as criações nos tiram do lugar. Se depois canonizam certas figuras e determinadas paisagens, foi porque a paixão que ergue um corpo-figura-paisagem em imagem mobilizou imensidões. Sem dúvida queremos imagens nas quais possamos nos colar. Mas, acima de tudo, as imagens queridas são aquelas cujos recortes voam além dos enquadramentos. Molduras, quadros, monitores e todo tipo de dispositivos quadrangulares nos quais a cultura as circunscreve.
8 minutos e 7 segundos
Mais do que imagens, queremos paixões. Se o pathos só pode se erguer como obra se valendo de imagens, isso não demanda tanta conversa sobre elas. Melhor seria simplesmente fruir da natureza das figuras, das cores, das abstrações, das massas e das junções. Mas, para sustentar o sentido dos corpos apresentados somente pela via da linguagem, como estamos acostumados a nos valer, fica-se sob o jugo de gramáticas muito mais estreitas do que a plasticidade da poesia em si. Por isso, toda essa falação. Tanta coisa escrita, necessidade de leituras e explicações. A neurose interpretativa não suporta o silenciar inconsciente que toda e qualquer imagem tem.
9 minutos e 5 segundos
Amanhecemos. Sem peles, só imagem. Gozamos largando as palavras. Buscando flashs da eternidade, mas efetivamente vivendo os matizes lentos do crepúsculo. Num novo corpo. Esse que intensamente um encontro cria. Nunca o mesmo encontro. Porque os corpos se reinventam. E, mais do que de imagens, precisam uns dos outros. Entretanto, imagens são corpos. Que dificilmente são zerados, pois são númens e nomes. Cheios de fluxos inclassificáveis e impossíveis de serem numerados, somente quantum que em nenhuma tabulação pode expressar. As imagens são o quanto de prazer um corpo é capaz de suportar.
10 minutos e 18 segundos, ultrapassei meu tempo
Imagens proliferam. Quem cria faz delas o que quiser. Quem cria reinventa a imagem e a torna diferença. Se isso incomoda é porque até a mais banal das imagens estranha a si mesma e a toda a discursividade que contém. Continente, a imagem não pode ser apartada do desenho. Substancial, a imagem pinta.
10 minutos e 45 segundos, ai ai, ai
Zerar a imagem não é calar. Apenas esquecer tudo o que ela supostamente trata. Olhar por olhar, não para entender o tratamento que o texto envolve, mas sim para se apaixonar. Arriscar o corpo em tudo o que a superfície oferece. No plasma e no cristal líquido gosmas são anunciadas. Fantasias, enfrentamentos e encantos. Se não nos apaixonarmos, nenhuma imagem, sempre corpo, tem graça.
11 minutos e 10 segundos
Alguma coisa aconteceu. Anoitece. Tudo continua igual. O que nos faz provar, tão pequeno lapso de diferença? A vida é sempre a mesma. O dia vem, cai na noite, a cada volta da terra em torno do sol, uma nuance. O que muda está na arte. E a arte apaixona, não educa.
11 minutos e 37 segundos, impossível encaixar pensamento e poética perfeitamente no tempo, cada vez menor em todas as circunstâncias.

(Poéticas da arte na educação contemporânea)

sexta-feira, 6 de março de 2009

For there she was


"Clarissa was positive, a particular hush, or solemnity; an indescribable pause; a suspense (but that might be her heart, affected, they said, by influenza) before Big Ben strikes. There! Out it boomed. First a warning, musical; then the hour, irrevocable. The leaden circles dissolved in the air. Such fools we are, she thought, crossing Victoria Street"

quinta-feira, 5 de março de 2009

“gostaria de ser toda mais stacatto, mas comedida, nas emoções, mesmo no meu existir diário” - h.h.

“Porque acho que dentro de nós temos três caras. Uma primeira seria 

aquela aparente, convencional, 

que a gente mostra e que não é verdade. A segunda é aquela que você coloca quando ama. 

É a tua melhor cara, essa cara iluminada, amorosa, onde você é um núcleo importante de vida. E depois a outra cara secretissima, onde entra o escuro, o sórdido, aquilo que é rejeitado em você. Todas essas caras podem ainda ser subdivididas em milhares de outras. Mas o importante é que essas máscaras apareçam e comecem a ficar transparentes e surja então a verdadeira cara.”

Qadós


“... e uma noite, lendo sobre as estruturas políticas, o corno das ditaduras no ventre dos humildes, a anatomia intrincada dos homens do poder pensei que uma palavra devia chegar aos homens, que era inútil ficar olhando para cima e para baixo te buscando e então sentei-me e escrevi durante dez noites a palavra amor, cem mil páginas, cem mil, coloquei o calhamaço num caixote com rodinhas postei-me numa esquina e a todo aquele que passava eu entregava uma folha e dizia Amor Amém. Cão de Pedra, como a cidade riu. As mulheres desabotoavam a blusa à minha frente e gritavam: Vem, Amor, Kadosh. Os homens cuspiam na minha cara: vai arriando as calças amor amor. Corri, quebrei os tornozelos, vivi noventa dias no caixote com rodinhas, o traseiro em brasa sobre o calhamaço amor amor. Que nojo. Que vergonha."



Plath

White 
Godiva, I unpeel---- 
Dead hands, dead stringencies.

And now I 
Foam to wheat, a glitter of seas. 
The child's cry

Melts in the wall. 
And I 
Am the arrow,

The dew that flies, 
Suicidal, at one with the drive 
Into the red

Eye, the cauldron of morning.

quarta-feira, 4 de março de 2009

matamoros


ai, eu vou morrer de pura e constante mágoa!
nesta terra não há felicidade.
eu sei que eu não fui boa quando menina
nem depois e nem sou agora,
mas tenho no de dentro tanto amor por esse homem bendito
que se o tomam de mim anoiteço como a noite de sempre
hei de ser eternamente meia noite
buraco
no fim de uma pedra num confim de abismo

É bom estar de volta.