quinta-feira, 28 de maio de 2009

O livro da minha vida

Harry diz: "Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte."

Ao que Hermínia responde: "Quero dizer-lhe hoje uma coisa que já sei há muito e que você também sabe, mas que talvez nunca a confessou a si mesmo. Quero dizer-lhe agora o que sei de mim, de você, de nosso destino. Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry? Não é este o seu destino?"



(O Lobo na Estepe)

Não sei se já coloquei aqui. Na realidade, nem gosto tanto dela, mas suas frases me vêm muito a propósito...




"O amor deveria ser somente o início. Haveria um alarme interno que lembrasse: acabou. Antes de virar rotina. Antes do tédio, este tumor moderno. Bem antes de se tornar uma areia movediça que deixa a todos apenas o nariz de fora. 'O reverso inevitável da paixão'. Fim. The end. Finito. Ou uma campainha aguda no cérebro, que acordasse da letargia irracional que a maioria dos amantes adquire com o passar do tempo. Tudo, porque o Homem deseja a eternidade. Ele não tem fé suficiente para acreditar em vida após a morte, por isso quer durabilidade. Prefere se agarrar ao eterno em vida. E, para a grande e extensa maioria, a eternidade não virá em forma de obra-prima. Por isso, o casamento."

(Vergonha dos Pés)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Aritmética


XIII

"Sabe qual é meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. Que um dia imagine o quanto teria sido ótimo estar ao meu lado, mesmo quando eu estava gripada. No entanto, sei que você está a cada dia que passa mais fugidio. E eu me limito a me surpreender com as circunstâncias da vida. Que me levaram a viver esse papel: o da mulher que quer mais um pouquinho. Constrange-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por você estar dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida. Latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude."