domingo, 28 de junho de 2009

O Abutre


Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.

- É que estou sem defesa – respondi – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor – Basta um tiro e pronto!

- Acha que sim? – disse eu – Quer o senhor disparar o tiro?

- Certamente – disse o senhor – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?

- Não sei lhe dizer. – respondi.

Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:

- De qualquer modo, vá, peço-lhe.

- Bem – disse o senhor – Vou o mais depressa possivel.

O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás, senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

Vou-me. One flew over the cuckoos nest.



“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Olaria


"Aprendo a cada sopro de vento que a vida vale o que dela não se cumpre."

Ler: O Conto do Abutre - Franz Kafka



"(...) a vida é sofrimento de diversos modos dito.
Mas eu não sofri como alguém que sofre. Não lembro de nada que fosse igual à vida de qualquer um. Não tive sonhos como quem sonha, e fome como é de se ter fome quando a boca vazia se anuncia porta morta do estômago. Se houvesse o cerne das coisas, eu teria a fome que é comum a todos. Tive, todavia, fome de uma outra e mesma espécie: a fome do corpo, assim nasci e me ensinaram - não foi nada difícil obedecer, aceitar o ritmo imposto, as ordens de cima e engolir tudo que me era oferecido. Tive fome, recebi alimento, obtendo como uma espécie de comida - porque tudo, em sendo do mundo humano, se come - o dízimo do afeto como uma colher de sopa, o dedo da compaixão como a ponta seca do pão e a final xícara de chá para o estômago que se defende em nome da moléstia que seca com lágrima aziaga a passagem dos dias. Fui vivendo. Tive a fome do corpo, mas não tive a fome que move, a alma da fome que arrebenta o corpo em ondas fazendo-o mar vivo onde navegar existência, nem a fome da alma que faz dos sonhos o verdadeiro alimento, pois deles cresce a vida, e a vida é boa, não sei ao certo, mas deve ser, como apenas sabem ser os instantes despercebidos, ela está nas coisas que se inventam e crescem, mas também momentos felizes que suportam os maus instantes sobre os quais se costuma emitir o juízo de que isso é vida. Ou seria o sonho? Não suponho que nada disso seja verdadeiro, é um discurso ainda que não seja belo. Preciso do sonho, outro discurso, outra teoria. Vou reunindo minhas necessidades à sensação de que devo seguir. Volto, a cada vez, ao sonho.


(...)

Escolhi, no quão de escolha pode ter um traçado afeito ao inexorável, olhar as coisas como folhas de árvores distantes e janelas de uma cidade longe, e percebi suas tensões e estratégias, limites e vazios, e, das coisas vistas e visíveis, decidi pelo céu, não como em decisão de teor exato, mas porque o destino se diz de diversos modos e já que se respeitá-lo; decidi-me, então, pelo que flutua e, muito mais tarde, pelo que dele cai, que se mostra a todas as coisas enquanto se esconde ao olho. O olho é o limite. O mundo caiu do céu vindo parar dentro de meu olho, junto desceram pássaros diurnos e noturnos; nenhum deles me livrou de meu suplício, nem lhe carregou a culpa; não levantaram vôo nunca mais, minhas membranas grudaram em suas patas. Fiquei com a natureza em mim, o olhar de medo, distante das coisas, saturado de ar, esvoaçado e flutuante, ciscos e ciscos, cílios caídos dentro do vulcão, as constelações mortas, as luzes apagadas. Isso me pesa, não porque o universo seja desproporcional ao que posso ver, mas porque me enche de remorsos não poder vê-lo por inteiro. Esforço-me em ver, não posso ver o que deveria, os escombros estão sob a tarja azul que apareceu sobre a minha retina, a cada movimento me torno mais incapaz; além de tudo, o cansaço da ação do olhar, acrescido da incompreensão dos caminhos de ver, dá-me muito sono; a vontade de dormir para sempre, comum a quem é vivo, prostra-me funâmbula entre dois mundos, o de antes e o de depois da corda, e a Parca à espreita segue com seus cílios longos ameaçando com labaredas aquosas o minuto vindouro; entre o fio tecido e o antes fio fiado, temo a tesoura sem fio que morderá desdentada o resto do meu tempo, fazendo-me a abandonada vítima dessa tria fata, e eu a mosca presa em fios de teia; meus muitos olhos - não tivesse eu esses olhos quase cegos - de nada resolveriam se eu precisasse abarcar o mínimo; hei, por força da tarja azulíssima em minha retina, de vagar sempre palmos adiante do mais próximo, dedos aquém do mais longe, pesando, pesando, a corda por todos os lados, eu sem ver aonde ir; Pégaso caído sobre meus ombros, o peso do desamparo curva-me ainda mais. Se pudesse, dormiria anos para deixar de ver por completo e de seguir com esse peso; se eu pudesse, ficaria em paz no escuro, como uma nuvem de fumaça que esmaece em neblina úmida, memória alugada para as horas infames que venho tendo. (...) Tenho a dívida e não devo deixá-la para trás, como é preciso levar a sério todas as simples questões de vida e morte."



(Magnólia)