A vida queima e o fogo fere. A cada segundo o Boto-mórula se consumia e ia adquirindo uma cor grafite-acinzentada. Pele em carne viva. A alma descarada. Escarrar nos outros e atirar chiclete na calçada. Talvez por nunca ter sentido tanto ou talvez por crer não sentir nada (paradoxo #2 em si) trazia revolta consigo mesmo.
"A coisa em ti, nunca. A coisa em si". Relampejos numa escuridão cortada por flashes de coloração azul-anil, verde-esmeralda e magenta. Das luminescências observa-se uma cara enrugada. Sonhar acordado, ver sua própria face seca e podre enquanto ainda se possui o viço da juventude.
Imaginava nunca poder justificar mediocridade com a falta de idade. Maturidade maturidade maturidade. Consciência dos próprios atos versus culpabilidade. O vício penal em si. Crianças na Alemanha combatiam a ditadura aos quinze anos e reis subiam ao trono aos treze. Júbilo de enfastio, lágrimas escorriam negras dos olhos em furor.
Como fazia calor! Por Deus. Um suor escorria-lhe pelo peito e uma gota desceu por entre o sulco do peitoral. Abanava-se e pensava em como o calor remetia à idéia de fornicação. Afinal uma orgia teria uma definição mais honrosa do que a de um bacanal? Sentia-se em contato com o mundo e vinha à sua mente a imagem dos olhos revirados de uma mulher cavalgando de prazer.

Carros trocaram buzinas no cruzamento lá fora e o retiraram do sono. Espreguiça-se e deita-se de lado preguiçosamente esfregando os olhos. Já ia horas ali no ócio porém ainda se sentia cansado. Culpava as ondas de rádio que outrora não matavam os neurônios de sua cabeça e achava que o tempo ia paulatinamente se acelerando sem que ninguém, para o seu desespero, se desse conta. A não ser ele. Ó Senhor, livrai-nos dos "abestados e atoleimados". Hilst desde então já dizia.
Queria conversar em outra época, reencontrar amigos de hoje só que com a opinião de dois anos atrás. Teria, se vivesse na década passada, assediado Elis Regina e invadido o domicílio de Hilda Hilst. Estrada do Sol para a morada do Sol. Compraria um outdoor em plena Avenida Paulista e declararia seu amor às vítimas de todas aquelas tragédias que ainda haveriam de acontecer.
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Dois anos depois e lhe pergunto: para onde esse poeta foi?


